Suecos escolherão um novo Parlamento em 13 de setembro. A disputa entre Magdalena Andersson, Ulf Kristersson e Jimmie Åkesson poderá influenciar as políticas europeias de imigração, segurança, energia, Ucrânia e até a possível adoção do euro.
A Suécia realizará eleições parlamentares, regionais e municipais em 13 de setembro de 2026. A votação nacional escolherá os 349 integrantes do Riksdag, o Parlamento sueco, que posteriormente decidirão quem será o primeiro-ministro.
Diferentemente de uma eleição presidencial, os eleitores suecos não votam diretamente num candidato a chefe de governo. Eles escolhem partidos e representantes parlamentares. Para controlar o Parlamento, um bloco precisa reunir pelo menos 175 dos 349 assentos.
Os partidos precisam alcançar pelo menos 4% dos votos nacionais para participar da distribuição proporcional de assentos, embora exista uma possibilidade alternativa de representação para quem obtenha votação elevada numa circunscrição específica.
Essa regra pode ser decisiva em 2026. O Partido Liberal, integrante do atual governo, aparece em algumas pesquisas abaixo da barreira de 4%. Caso não consiga permanecer no Parlamento, o bloco governista poderá perder um número importante de assentos.
As eleições serão as primeiras realizadas desde que a Suécia entrou oficialmente na NATO, em março de 2024, encerrando uma longa tradição de neutralidade e não alinhamento militar.
Os principais candidatos ao governo
Os dois nomes com maiores possibilidades de ocupar o cargo de primeiro-ministro são Magdalena Andersson, líder do Partido Social-Democrata, e Ulf Kristersson, atual primeiro-ministro e líder do Partido Moderado.
Jimmie Åkesson, líder dos Democratas Suecos, também será uma figura central. Mesmo que não se torne primeiro-ministro, o seu partido poderá entrar formalmente no governo e assumir ministérios importantes pela primeira vez.
Magdalena Andersson
Magdalena Andersson governou a Suécia entre novembro de 2021 e outubro de 2022. Ela lidera o Partido Social-Democrata, historicamente a maior força política do país.
Os social-democratas defendem o aumento dos investimentos em saúde, educação, segurança social e serviços públicos. O partido acusa o atual governo de priorizar cortes de impostos enquanto municípios e regiões enfrentam dificuldades para financiar hospitais, escolas e cuidados para idosos.
Andersson também propõe uma estratégia de longo prazo contra as organizações criminosas. A linha defendida combina penas mais severas para crimes graves e económicos com medidas sociais destinadas a impedir o recrutamento de crianças e adolescentes por gangues.
Entre as propostas apresentadas estão novas ferramentas legais contra organizações criminosas, restrições de contacto para integrantes de gangues, ampliação de prisões e maior acompanhamento de crianças consideradas em risco.
Apesar de estar na centro-esquerda, Andersson não promete retornar às antigas políticas migratórias mais abertas da Suécia. Os social-democratas passaram a defender uma imigração controlada, exigência de aprendizagem do idioma sueco e medidas mais rigorosas de integração.
A principal diferença em relação ao atual governo estaria na forma de aplicação das regras, com maior proteção contra expulsões consideradas desproporcionais e mais atenção aos efeitos das restrições sobre famílias, trabalhadores e jovens integrados à sociedade.
Na política internacional, um governo liderado por Andersson provavelmente manteria a participação na NATO, o aumento dos investimentos militares e o apoio à Ucrânia.
O maior desafio da candidata será formar uma maioria. Os social-democratas podem precisar do apoio simultâneo do Partido de Esquerda, dos Verdes e do Partido do Centro, que possuem diferenças profundas sobre impostos, empresas, energia e participação no governo.
Ulf Kristersson
Ulf Kristersson é primeiro-ministro desde outubro de 2022 e lidera o Partido Moderado, principal força conservadora tradicional da Suécia.
O seu governo é formado pelos Moderados, Democratas-Cristãos e Liberais. Entretanto, a coligação não possui maioria própria e depende do apoio parlamentar dos Democratas Suecos.
Kristersson pretende formar, depois das eleições, um governo majoritário com os quatro partidos da direita. Pela primeira vez, isso incluiria ministros dos Democratas Suecos.
As prioridades dos Moderados são a redução de impostos, o estímulo ao trabalho e às empresas, o combate ao crime organizado, o fortalecimento das Forças Armadas e a construção de novas centrais nucleares.
O partido defende penas mais severas, ampliação da capacidade das prisões, novos poderes para a polícia e mecanismos para atingir o património e as fontes de financiamento das gangues.
Na imigração, Kristersson promete continuar a política de redução do número de requerentes de asilo, aumentar as exigências para a cidadania e restringir o acesso de recém-chegados a determinados benefícios sociais.
O governo afirma que as medidas combatem fraudes, exploração laboral e dificuldades de integração. Empresas de tecnologia e organizações empresariais alertam, porém, que as regras também podem afastar profissionais qualificados estrangeiros necessários à economia sueca.
Na energia, Kristersson aposta na expansão nuclear para garantir eletricidade estável às famílias e indústrias. O governo também admite novos projetos eólicos, mas adota uma postura mais seletiva, especialmente em áreas consideradas sensíveis para a defesa nacional ou para as comunidades locais.
Jimmie Åkesson
Jimmie Åkesson lidera os Democratas Suecos, partido nacionalista que se tornou a segunda maior força política do país nas eleições de 2022.
O partido já influencia o atual governo através do Acordo de Tidö, que estabelece uma plataforma comum para imigração, segurança, energia e economia. Entretanto, não possui ministros.
Kristersson afirmou que, se o bloco vencer, os Democratas Suecos poderão assumir postos importantes, principalmente nas áreas de imigração e integração.
Åkesson defende uma redução ainda maior da imigração, regras mais rigorosas para residência e cidadania, aumento das expulsões e incentivos financeiros para o retorno voluntário de estrangeiros aos países de origem.
O partido também propõe penas mais severas contra criminosos, maior poder para a polícia e restrições de benefícios públicos para pessoas que ainda não cumpriram determinados requisitos de residência ou integração.
Na economia, os Democratas Suecos defendem redução dos custos de combustíveis e alimentos, proteção do sistema de bem-estar social para residentes estabelecidos e mais assistência odontológica para idosos.
O partido possui uma visão mais nacionalista da União Europeia e costuma rejeitar a transferência de novas competências para Bruxelas. Apesar disso, chegou a um acordo com os Liberais para defender uma consulta popular, prevista para 2030, sobre a possível adoção do euro pela Suécia.
A realização desse referendo ainda dependeria do apoio dos outros partidos do bloco e das condições políticas depois da eleição.
Os demais líderes partidários
Nooshi Dadgostar lidera o Partido de Esquerda. Ela defende maior tributação sobre rendimentos elevados, ampliação dos investimentos públicos e proibição ou forte limitação dos lucros privados em escolas, hospitais e outros serviços financiados pelo Estado.
O partido também propõe maior controlo público sobre eletricidade, transportes e habitação, além de uma transição climática financiada de forma mais progressiva. Dadgostar indicou que poderá exigir ministérios para apoiar um governo de Magdalena Andersson.
Elisabeth Thand Ringqvist lidera o Partido do Centro. A legenda defende pequenas empresas, agricultura, desenvolvimento rural, políticas ambientais e integração europeia. Também possui uma posição mais favorável à imigração laboral necessária às empresas.
O Partido do Centro rejeita cooperar com os Democratas Suecos, mas possui diferenças económicas importantes com o Partido de Esquerda. Essa incompatibilidade poderá dificultar a formação de um governo liderado pelos social-democratas.
Ebba Busch lidera os Democratas-Cristãos e ocupa o cargo de vice-primeira-ministra. O partido prioriza saúde, atendimento aos idosos, apoio às famílias, segurança pública e expansão da energia nuclear.
Amanda Lind e Daniel Helldén são os porta-vozes do Partido Verde. A legenda defende investimentos mais rápidos em energia eólica e solar, expansão ferroviária, transportes públicos, proteção ambiental e políticas migratórias mais humanitárias.
Simona Mohamsson lidera o Partido Liberal. As principais propostas estão ligadas à educação, exigência do idioma sueco para integração, combate ao extremismo e fortalecimento da cooperação europeia.
Os Liberais abandonaram a antiga recusa de participar de um governo com os Democratas Suecos. Entretanto, o partido corre o risco de não atingir os 4% necessários para permanecer no Parlamento.
O que mostram as pesquisas
Uma pesquisa do órgão oficial de estatísticas da Suécia, divulgada em junho, colocou os quatro partidos de oposição com 55,2% das intenções de voto, enquanto o bloco governista apareceu com 42,6%.
Os social-democratas receberam 33,9% na pesquisa, enquanto os Democratas Suecos apareceram com 18,3%. Os Liberais ficaram abaixo da barreira necessária para conquistar assentos.
Pesquisas representam apenas o momento em que foram realizadas e não constituem uma previsão definitiva. A distribuição dos votos entre os partidos menores e as negociações posteriores poderão ser tão importantes quanto a diferença entre os dois maiores partidos.
Como a eleição pode afetar o restante da Europa
Imigração
Uma vitória de Kristersson com participação formal dos Democratas Suecos poderia aproximar a Suécia dos governos europeus que defendem maior controlo das fronteiras, deportações mais rápidas e restrições ao acesso de imigrantes a benefícios sociais.
A entrada do partido nacionalista no governo também fortaleceria grupos semelhantes em outros países e poderia alterar as negociações do Conselho da União Europeia sobre asilo e imigração.
Uma vitória de Andersson não significaria o retorno automático a uma política de fronteiras abertas. A tendência seria manter grande parte das restrições, mas com alterações na integração, na imigração laboral e na proteção de pessoas já estabelecidas no país.
Ucrânia e NATO
A política de defesa é uma das áreas com maior consenso entre os principais partidos. Tanto Kristersson como Andersson apoiam a NATO, o fortalecimento militar sueco e a continuidade da assistência à Ucrânia.
Por essa razão, o resultado provavelmente não provocaria uma mudança radical na posição sueca sobre a guerra.
A Suécia ocupa uma posição estratégica no Mar Báltico e possui uma importante indústria militar. O país é essencial para a defesa da Finlândia, dos países bálticos e das rotas de abastecimento no norte da Europa.
Energia
Uma nova vitória da direita aceleraria os projetos de energia nuclear, incluindo grandes reatores e centrais modulares menores. Isso poderia criar contratos para empresas de vários países europeus e fortalecer o grupo de Estados que defende a energia nuclear dentro da União Europeia.
Um governo dependente dos Verdes provavelmente daria maior prioridade à energia eólica, redes elétricas, armazenamento e transportes públicos. Projetos nucleares já avançados poderiam continuar, mas enfrentariam maior controlo sobre custos e garantias públicas.
As decisões suecas também afetam os preços e o fornecimento de eletricidade nos países nórdicos e em partes do norte da Europa, devido às ligações entre as redes elétricas.
Euro e integração europeia
A Suécia faz parte da União Europeia, mas continua utilizando a coroa sueca. Em 2003, os eleitores rejeitaram a adoção do euro.
O acordo entre Liberais e Democratas Suecos prevê a possibilidade de um novo referendo em 2030. Se essa proposta avançar, a eleição de 2026 poderá ser o primeiro passo para uma das maiores expansões recentes da zona do euro.
A entrada da Suécia teria importância económica e simbólica. O país possui uma economia avançada, um setor tecnológico relevante e empresas multinacionais com forte presença no mercado europeu.
Clima
Uma vitória da oposição, principalmente com participação forte dos Verdes, poderia tornar a Suécia novamente uma das vozes mais ambiciosas nas negociações climáticas europeias.
A continuidade da direita manteria a meta de reduzir emissões, mas com maior dependência da energia nuclear, proteção aos motoristas e preocupação com o custo das políticas ambientais para famílias e empresas.
Crime organizado
A violência entre gangues tornou-se um dos principais assuntos da eleição. Independentemente do vencedor, a Suécia deverá apoiar maior cooperação policial europeia, controlo de armas, troca de informações e combate internacional à lavagem de dinheiro.
As organizações criminosas suecas possuem ligações com redes presentes em outros países. Por isso, medidas aprovadas em Estocolmo podem ampliar operações conjuntas com Dinamarca, Noruega, Finlândia, Alemanha, Espanha e países dos Bálcãs.
Uma eleição com impacto continental
A eleição sueca não decidirá apenas quem administrará o país pelos próximos quatro anos. Ela mostrará se a entrada de partidos nacionalistas em governos europeus continuará avançando ou se os eleitores procurarão um retorno à centro-esquerda.
Magdalena Andersson aparece como favorita para liderar uma alternativa, mas ainda precisa transformar partidos politicamente diferentes numa maioria parlamentar.
Ulf Kristersson, por sua vez, aposta na formação de um governo de direita mais estável, mesmo que isso signifique entregar ministérios importantes aos Democratas Suecos.
O resultado influenciará as políticas europeias de imigração, energia e clima, mas deverá preservar a participação sueca na NATO e o apoio à Ucrânia.
A composição final do Parlamento será conhecida depois da votação de 13 de setembro. A escolha do primeiro-ministro, porém, poderá depender de semanas de negociações entre os partidos.