A União Europeia está ampliando seus esforços para reduzir a dependência de tecnologias controladas por empresas e governos de fora do continente. A iniciativa não pretende isolar o mercado europeu, mas garantir que serviços essenciais, infraestruturas críticas e setores industriais possam continuar funcionando mesmo durante crises comerciais, conflitos diplomáticos ou interrupções nas cadeias internacionais de fornecimento.
O movimento ganhou força com a apresentação, em 3 de junho de 2026, do Pacote Europeu de Soberania Tecnológica. A proposta reúne medidas direcionadas aos semicondutores, à inteligência artificial, aos serviços de computação em nuvem, aos programas de código aberto e à digitalização do sistema energético.
O diagnóstico da Comissão Europeia é que a dependência tecnológica deixou de ser apenas uma questão econômica. Hospitais, bancos, redes elétricas, telecomunicações, sistemas públicos, indústrias e estruturas de defesa utilizam equipamentos, programas e plataformas digitais que podem estar submetidos às decisões de empresas ou autoridades estrangeiras.
De acordo com a comunicação apresentada pela Comissão, a União Europeia ainda depende de fornecedores externos para mais de 80% de seus produtos, serviços, infraestruturas e propriedades intelectuais digitais. O objetivo europeu, portanto, não é produzir absolutamente tudo dentro do bloco, mas reduzir dependências excessivas e evitar que um único fornecedor ou país tenha capacidade de interromper serviços fundamentais.
Semicondutores no centro da estratégia
Os semicondutores são componentes fundamentais de praticamente toda a economia moderna. Estão presentes em automóveis, equipamentos médicos, sistemas industriais, computadores, redes de telecomunicações, satélites, armamentos e infraestruturas de inteligência artificial.
Apesar de possuir empresas importantes na fabricação de equipamentos e componentes especializados, a Europa continua dependente da Ásia e dos Estados Unidos em etapas essenciais da cadeia de semicondutores, especialmente no desenvolvimento e na produção dos chips mais avançados.
O relatório europeu sobre a Década Digital indica que empresas da União Europeia representam aproximadamente 8,8% das receitas mundiais do setor de semicondutores, resultado ainda distante da meta europeia de alcançar 20% do mercado mundial até 2030.
Para enfrentar essa situação, o Regulamento dos Circuitos Integrados 2.0, também chamado de Chips Act 2.0, pretende:
* acelerar autorizações para novas fábricas;
* incentivar investimentos em chips avançados;
* apoiar componentes destinados à inteligência artificial;
* aproximar fabricantes europeus de empresas compradoras;
* identificar vulnerabilidades nas cadeias de fornecimento;
* desenvolver regiões especializadas na produção de semicondutores.
A intenção é evitar a repetição das interrupções observadas nos últimos anos, quando a escassez mundial de chips afetou fábricas de automóveis, equipamentos eletrônicos e diversas outras atividades industriais.
Inteligência artificial e serviços de nuvem
Outro ponto sensível é a dependência europeia de empresas estrangeiras para armazenar dados e executar serviços de computação em nuvem.
Grande parte dos programas empresariais, bancos de dados, plataformas digitais e sistemas de inteligência artificial utilizados na Europa funciona dentro de infraestruturas operadas por grandes empresas norte-americanas. Os três maiores fornecedores mundiais de nuvem controlam conjuntamente mais de 60% desse mercado, segundo informações reunidas pela Reuters.
O Regulamento para o Desenvolvimento da Nuvem e da Inteligência Artificial pretende criar uma estrutura europeia comum para avaliar o nível de soberania dessas plataformas. Os critérios deverão considerar elementos como localização dos dados, controle operacional, propriedade da infraestrutura, transparência dos programas e exposição às leis de países estrangeiros.
Os requisitos mais rigorosos deverão ser aplicados principalmente a setores sensíveis, como:
* defesa;
* saúde;
* bancos e sistemas financeiros;
* energia;
* segurança pública;
* administração governamental;
* controle de fronteiras;
* infraestruturas críticas.
A proposta também estabelece condições para aumentar a capacidade europeia de centros de dados. A Comissão pretende triplicar essa capacidade dentro de aproximadamente cinco a sete anos, acompanhando o crescimento acelerado da inteligência artificial e da necessidade de processamento computacional.
Isso não significa necessariamente expulsar empresas estrangeiras. Elas poderão continuar atuando no mercado europeu, mas poderão ter de criar estruturas legalmente separadas, utilizar controles operacionais locais e demonstrar que dados e serviços críticos não podem ser unilateralmente interrompidos por autoridades externas.
Código aberto como alternativa estratégica
A estratégia europeia também pretende ampliar o uso de programas de código aberto, nos quais o funcionamento interno do software pode ser examinado, modificado e adaptado por organizações autorizadas.
O código aberto pode reduzir a dependência de licenças controladas por uma única empresa, facilitar auditorias de segurança e permitir que governos mantenham sistemas essenciais mesmo quando um fornecedor abandona determinado produto.
Segundo a Comissão Europeia, aproximadamente € 264 bilhões são gastos anualmente na Europa com produtos e serviços tecnológicos provenientes de países terceiros. Ao mesmo tempo, o continente possui cerca de três milhões de colaboradores envolvidos em projetos de código aberto.
A nova estratégia deverá apoiar empresas emergentes, comunidades de programadores, infraestruturas digitais e a utilização de alternativas abertas por administrações públicas.
O desafio será transformar projetos tecnicamente eficientes em produtos com suporte profissional, atualizações constantes e capacidade de atender grandes governos e empresas.
Energia, baterias e tecnologias limpas
A independência tecnológica europeia não depende apenas de programas e computadores. A produção de baterias, painéis solares, equipamentos para hidrogênio, turbinas, redes elétricas e veículos elétricos também exige fábricas, energia e cadeias industriais próprias.
O Regulamento da Indústria de Impacto Zero estabelece como referência que a capacidade europeia de fabricação de tecnologias limpas se aproxime ou alcance pelo menos 40% das necessidades anuais de implantação da União Europeia até 2030.
A expansão de centros de dados e sistemas de inteligência artificial também aumenta a pressão sobre as redes elétricas. Por isso, o pacote tecnológico inclui um roteiro específico para integrar centros de processamento ao sistema energético, melhorar o aproveitamento de energia renovável e desenvolver modelos de inteligência artificial considerados seguros para o setor elétrico.
Essa integração será necessária para impedir que a corrida por capacidade computacional provoque congestionamentos nas redes, aumente excessivamente o consumo de energia ou prejudique outras atividades industriais.
O problema das matérias-primas
Mesmo que fábricas sejam construídas dentro da Europa, muitas delas continuarão dependendo de minerais extraídos ou processados em outros continentes.
Lítio, cobalto e níquel são importantes para baterias. Gálio é utilizado em semicondutores e painéis solares. Titânio e tungstênio possuem aplicações aeroespaciais, industriais e militares.
O Regulamento Europeu das Matérias-Primas Críticas estabelece metas para que, até 2030, a União Europeia seja capaz de extrair internamente 10% de suas necessidades anuais, processar 40% e obter 25% por meio de reciclagem.
A estratégia também procura diversificar fornecedores externos. Em vez de substituir totalmente as importações, a Europa pretende evitar situações nas quais praticamente todo o abastecimento de determinado material dependa de apenas um país.
Benefícios esperados
Caso as medidas sejam aprovadas e implementadas, a estratégia poderá gerar novas fábricas, centros de pesquisa, empregos especializados e investimentos em infraestrutura.
Empresas europeias poderão encontrar mais oportunidades em contratos públicos e projetos considerados estratégicos. Governos, por sua vez, poderão exigir maior controle sobre dados, programas e equipamentos utilizados em serviços essenciais.
Para cidadãos e consumidores, os benefícios mais prováveis seriam indiretos: maior proteção contra interrupções, mais alternativas de fornecedores e menor vulnerabilidade a conflitos comerciais internacionais.
A estratégia também poderá fortalecer a segurança dos dados europeus, especialmente em hospitais, bancos e órgãos governamentais.
Custos e dificuldades
A construção de fábricas de semicondutores, centros de dados e cadeias industriais completas exige investimentos de dezenas de bilhões de euros. A Europa também enfrenta custos energéticos elevados, escassez de profissionais especializados e dificuldades para transformar pesquisas científicas em empresas de grande escala.
Outro risco é a fragmentação. Países com maior capacidade financeira podem atrair a maior parte dos projetos, enquanto Estados menores podem ficar dependentes das infraestruturas instaladas em poucos membros da União Europeia.
Também existe a possibilidade de produtos fabricados na Europa serem inicialmente mais caros do que alternativas importadas. Exigências excessivamente rígidas de produção local poderiam reduzir a concorrência ou provocar respostas comerciais de outros países.
Por esse motivo, a Comissão afirma que soberania tecnológica não significa isolamento, protecionismo absoluto ou ruptura com parceiros internacionais. O objetivo declarado é manter uma economia aberta, mas com fornecedores diversificados e capacidade europeia suficiente para enfrentar emergências.
O que acontecerá agora
O Chips Act 2.0 e o Regulamento para o Desenvolvimento da Nuvem e da Inteligência Artificial ainda precisam ser negociados pelo Parlamento Europeu e pelos governos nacionais reunidos no Conselho da União Europeia.
Durante as negociações, poderão ocorrer alterações nos critérios de soberania, nas exigências para contratos públicos, nos incentivos para fabricantes e nas regras aplicáveis a empresas estrangeiras.
O resultado deverá definir até que ponto a Europa está disposta a pagar mais no curto prazo para obter maior segurança tecnológica no futuro.
A disputa não é apenas por fábricas ou participação de mercado. O continente tenta garantir que decisões relacionadas a dados, inteligência artificial, energia, defesa e infraestrutura digital não sejam tomadas exclusivamente em Washington, Pequim ou nas sedes de grandes empresas estrangeiras.