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União Europeia seleciona seis empresas de tecnologia para possível investimento de €97 milhões

Empresas de semicondutores, inteligência artificial, reciclagem de baterias, comunicação a laser e materiais produzidos com CO₂ avançaram na seleção de um programa europeu criado para reduzir dependências tecnológicas e facilitar grandes investimentos.

Pesquisador trabalha com um disco de silício em uma sala limpa usada para fabricação de circuitos avançados
Imagem: Foto do Oak Ridge National Laboratory, disponibilizada pelo Wikimedia Commons sob licença Creative Commons Atribuição 2.0 — CC BY 2.0

A Comissão Europeia anunciou nesta terça-feira, 28 de julho, a seleção de seis empresas de tecnologia que poderão receber, em conjunto, até €97 milhões em investimentos públicos. Os projetos abrangem áreas consideradas estratégicas para o futuro econômico da Europa, incluindo processadores, inteligência artificial, reciclagem de baterias, comunicação a laser, armazenamento de energia e materiais de construção produzidos com dióxido de carbono.

As empresas avançaram dentro do programa STEP Scale Up, administrado pelo Conselho Europeu de Inovação. O mecanismo foi criado para ajudar companhias tecnológicas europeias a superar uma das etapas mais difíceis de seu desenvolvimento: a passagem de uma empresa inovadora de pequeno ou médio porte para uma operação industrial capaz de competir no mercado internacional.

Ao todo, 24 empresas apresentaram propostas nesta rodada. Dezessete foram convidadas para entrevistas com especialistas independentes e seis cumpriram todos os critérios técnicos e financeiros necessários para seguir para a etapa de análise do Fundo do Conselho Europeu de Inovação.

A seleção ainda não significa que o dinheiro já foi entregue. Cada empresa passará por uma auditoria detalhada, conhecida como due diligence, além de negociações sobre o valor, a participação do fundo e as condições do investimento.

Caso os acordos sejam concluídos, cada companhia poderá receber entre €10 milhões e €30 milhões, totalizando aproximadamente €97 milhões.

Quais empresas foram selecionadas

A lista reúne companhias da França, Alemanha, Países Baixos e Estônia.

A francesa Cailabs desenvolve equipamentos terrestres necessários para tornar sistemas de comunicação a laser mais acessíveis e comercialmente viáveis. Essa tecnologia pode permitir a transmissão de grandes volumes de dados entre satélites e estações terrestres com velocidades superiores às alcançadas por alguns sistemas tradicionais de rádio.

A comunicação a laser também pode ser utilizada em redes de satélites, observação da Terra, serviços de internet, defesa e missões espaciais. Entretanto, sua implantação exige equipamentos capazes de direcionar feixes com elevada precisão e compensar interferências atmosféricas.

A alemã Cylib trabalha com a reciclagem de baterias usadas. A empresa procura recuperar lítio, níquel, cobalto e outros materiais que podem retornar à fabricação de novas baterias.

Esse setor possui importância estratégica porque a Europa depende de fornecedores estrangeiros para grande parte das matérias-primas utilizadas em veículos elétricos, equipamentos eletrônicos e sistemas de armazenamento de energia.

Recuperar esses materiais dentro do continente pode reduzir importações, diminuir a quantidade de resíduos perigosos e aproveitar baterias que já chegaram ao final de sua vida útil.

A Paebbl, dos Países Baixos, transforma dióxido de carbono em materiais minerais que podem ser utilizados na construção civil. O objetivo é capturar o CO₂ e incorporá-lo de maneira permanente a produtos como cimento e outros componentes utilizados em edifícios e infraestrutura.

O setor da construção é responsável por uma parcela relevante das emissões mundiais. Tecnologias capazes de reduzir a emissão do cimento ou armazenar carbono dentro dos materiais podem ajudar a diminuir o impacto ambiental de obras, embora precisem competir em preço, resistência e disponibilidade com produtos tradicionais.

Processadores e independência digital

Três das seis empresas selecionadas possuem ligação direta com inteligência artificial, centros de dados ou processamento avançado.

A francesa SiPearl desenvolve unidades centrais de processamento de alto desempenho destinadas a supercomputadores, centros de dados soberanos e aplicações que exigem grande capacidade computacional.

A Europa possui empresas importantes na fabricação de equipamentos para semicondutores, mas continua dependente de companhias estrangeiras para grande parte dos processadores utilizados em servidores, computadores e sistemas de inteligência artificial.

Apoiar o desenvolvimento de processadores europeus não significa que o continente conseguirá substituir imediatamente grandes fabricantes norte-americanos ou asiáticos. O objetivo é garantir alguma capacidade própria em áreas consideradas críticas, principalmente administração pública, defesa, pesquisa científica, energia e infraestrutura digital.

A também francesa Vsora desenvolve sistemas de processamento voltados à inferência de inteligência artificial.

A inferência ocorre quando um modelo de inteligência artificial já treinado é utilizado para analisar informações, produzir respostas, reconhecer imagens ou tomar decisões. Essa etapa é executada continuamente em centros de dados, automóveis, fábricas, câmeras, dispositivos eletrônicos e outros equipamentos.

Processadores mais eficientes podem executar essas tarefas com menor consumo de energia e reduzir a dependência de chips importados.

Energia necessária para a inteligência artificial

A estoniana Skeleton Technologies desenvolve sistemas de energia conectados diretamente à infraestrutura de centros de dados.

O crescimento da inteligência artificial está aumentando a quantidade de energia necessária para alimentar servidores e sistemas de refrigeração. Além do consumo contínuo, os centros de processamento podem apresentar mudanças rápidas na demanda elétrica conforme os equipamentos iniciam ou encerram determinadas tarefas.

Sistemas de armazenamento e controle de energia podem estabilizar essas variações, reduzir o risco de interrupções e evitar que alterações repentinas afetem a rede elétrica.

A tecnologia da Skeleton procura conectar os equipamentos instalados nos racks dos servidores à rede elétrica, permitindo uma administração mais rápida da energia disponível.

Esse tipo de solução deverá ganhar importância conforme empresas e governos constroem centros de dados maiores. Sem investimentos em geração, transmissão, armazenamento e eficiência, a expansão da inteligência artificial poderá aumentar custos energéticos e criar dificuldades para as redes de determinadas regiões.

Por que a Europa está investindo nessas empresas

Empresas tecnológicas europeias frequentemente conseguem realizar pesquisas, produzir protótipos e demonstrar que uma tecnologia funciona, mas enfrentam dificuldades quando precisam levantar centenas de milhões de euros para construir fábricas, ampliar equipes e iniciar a produção em grande escala.

Essa etapa costuma exigir investimentos muito superiores aos obtidos durante as primeiras rodadas de financiamento.

Companhias norte-americanas possuem acesso a um mercado de capitais maior e mais integrado. Empresas chinesas podem receber apoio de grandes grupos industriais, bancos e programas governamentais. Na Europa, os investimentos permanecem mais fragmentados entre países, instituições e regras nacionais.

Como resultado, algumas empresas europeias acabam vendidas para grupos estrangeiros, transferindo suas operações para outros mercados ou crescendo mais lentamente do que suas concorrentes.

O programa STEP Scale Up procura reduzir essa diferença. Em vez de oferecer apenas um subsídio, o Fundo do Conselho Europeu de Inovação realiza investimentos em participação acionária.

Isso significa que o fundo europeu pode se tornar acionista da empresa. Caso o negócio cresça e aumente de valor, a União Europeia poderá recuperar o capital investido ou obter retorno financeiro com a futura venda de sua participação.

Caso a empresa fracasse, parte do dinheiro público poderá ser perdida. Investimentos em tecnologias avançadas possuem riscos elevados porque os produtos podem não alcançar o desempenho esperado, enfrentar atrasos ou perder espaço para concorrentes.

Dinheiro público deve atrair investidores privados

O investimento europeu não foi criado para financiar sozinho toda a expansão das empresas.

O programa oferece entre €10 milhões e €30 milhões por companhia, mas pretende ajudar a formar rodadas completas de financiamento entre €50 milhões e €150 milhões ou mais.

As empresas precisam demonstrar interesse inicial de um investidor qualificado. Esse compromisso deve representar pelo menos 20% da rodada pretendida.

O objetivo é utilizar o dinheiro europeu para reduzir parte do risco e convencer fundos privados, empresas industriais e outros investidores a participar.

Se uma companhia receber €20 milhões do fundo europeu, por exemplo, deverá buscar um volume muito maior de capital privado para construir fábricas, contratar profissionais, adquirir equipamentos e comercializar sua tecnologia.

O orçamento total do STEP Scale Up para 2026 é de €300 milhões.

Doze empresas receberão um selo europeu

Além das seis empresas encaminhadas para investimento, outras seis propostas foram consideradas tecnicamente excelentes, mas não foram selecionadas nesta rodada por causa do limite de recursos disponível.

As doze empresas receberão o chamado Selo STEP.

O selo não representa a entrega automática de dinheiro. Ele funciona como um reconhecimento de que o projeto atingiu os critérios de qualidade estabelecidos pelos avaliadores europeus.

A certificação poderá ajudar as companhias a buscar financiamento em outros programas públicos, fundos nacionais ou investidores privados. Elas também poderão acessar serviços de orientação, aproximação com parceiros e apoio empresarial oferecidos pelo Conselho Europeu de Inovação.

A existência de seis projetos aprovados tecnicamente, mas deixados fora do investimento imediato, também mostra que a quantidade de empresas interessadas é superior aos recursos disponíveis.

Concentração dos projetos

Metade das seis empresas selecionadas está sediada na França. Alemanha, Países Baixos e Estônia possuem uma representante cada.

A concentração não significa necessariamente favorecimento político, pois as propostas foram avaliadas por especialistas e as empresas precisavam atender a critérios técnicos e financeiros. Entretanto, o resultado demonstra que os ecossistemas tecnológicos europeus continuam distribuídos de maneira desigual.

Países com universidades fortes, investidores experientes, centros de pesquisa e políticas industriais consolidadas possuem maior capacidade de criar empresas preparadas para disputar grandes rodadas de financiamento.

Estados com menos capital disponível podem produzir boas pesquisas, mas enfrentar dificuldades para transformar essas descobertas em companhias de grande porte.

Para que a estratégia tecnológica europeia beneficie todo o bloco, será necessário melhorar a ligação entre universidades, empresas e investidores também nas regiões que atualmente recebem menos projetos.

Possíveis benefícios para consumidores e empresas

Os efeitos desses investimentos não serão percebidos imediatamente pela população.

A fabricação de processadores, construção de instalações de reciclagem e desenvolvimento de materiais industriais podem levar vários anos. Algumas tecnologias poderão ser utilizadas inicialmente apenas por outras empresas, governos ou centros de pesquisa.

No longo prazo, os projetos podem ajudar a criar empregos especializados, reduzir a dependência de componentes importados e ampliar a quantidade de fornecedores disponíveis no mercado europeu.

A reciclagem de baterias pode diminuir a necessidade de matérias-primas estrangeiras. Processadores europeus podem oferecer alternativas para centros de dados públicos e científicos. Sistemas de energia podem tornar a infraestrutura de inteligência artificial mais estável, enquanto materiais produzidos com CO₂ podem reduzir o impacto ambiental da construção.

O sucesso, porém, dependerá da capacidade de transformar pesquisas em produtos competitivos. Uma tecnologia estratégica não será amplamente utilizada apenas por ter sido desenvolvida na Europa. Ela precisará apresentar qualidade, preço, segurança e capacidade de produção suficientes para disputar clientes.

O que acontecerá agora

O Fundo do Conselho Europeu de Inovação deverá analisar as contas, os investidores, a propriedade intelectual, os riscos e os planos de crescimento das seis empresas.

Depois dessa avaliação, serão negociados os valores e as condições de cada investimento. O total final poderá ser inferior aos €97 milhões anunciados caso alguma empresa não conclua o processo ou receba uma quantia menor.

O programa permanecerá aberto para novas propostas. As próximas datas de agrupamento das candidaturas em 2026 estão previstas para 9 de setembro e 25 de novembro.

A nova seleção mostra que a política tecnológica europeia está começando a combinar regulamentação com investimentos diretos em empresas.

A Europa ainda enfrenta uma distância considerável em relação aos Estados Unidos e à Ásia na produção de processadores, inteligência artificial e grandes plataformas digitais. Entretanto, apoiar companhias capazes de fabricar tecnologias estratégicas pode evitar que boas pesquisas europeias sejam comercializadas e desenvolvidas exclusivamente em outros continentes.

O resultado real será medido nos próximos anos, quando será possível verificar se as empresas construíram novas instalações, ampliaram a produção, atraíram capital privado e conseguiram vender suas tecnologias em escala internacional.

Matéria original de euronoticias.eu
Data da publicação: 28/07/2026 - 22:50

Fontes consultadas